UMA PALAVRA INICIAL
Caro aluno,
Esta apostila é colocada em suas
mãos com uma finalidade: auxiliá-lo disciplina de Fundamentos Teológicos. Em
absoluto, não tem a pretensão de esgotar o assunto. Portanto, de muita valia é
consultar a bibliografia sugerida e buscar as referências ali consignadas.
Neste inicio de semestre, gostaria de
chamar a sua atenção para a importância desta disciplina. Longe de ser somente
mais um elemento curricular, Fundamentos Teológicos e Tópicos Teológicos (que
serão vistos no próximo semestre) compõem um conjunto único formidável que
ajudará na nossa formação como um todo. Que ninguém considere este tempo que
passaremos juntos, refletindo sobre muitas coisas sérias, tempo perdido, ou
desnecessário.
Com certeza, o nosso curso de Administração/Fisioterapia seria
deficiente, se não favorecesse, também, a formação do homem, a formação dos
princípios e valores que motivam a convivência em sociedade e, para os que têm
fé e a praticam, a formação para um sadio relacionamento com Deus.
Que ninguém fique constrangido. A
prática religiosa de todos será respeitada. O formato desta disciplina não
privilegia o catolicismo. Os que não comungam com a doutrina católica poderão
participar tranquilamente de todas as aulas. Assim, protestantes, judeus,
espíritas, e até mesmo ateus, são convidados a palmilhar um caminho que todos
podem percorrer: o da reflexão a respeito de si mesmo e do mundo que o cerca.
Com a proposta, porém, de olhar para o alto e tentar encontrar algo/alguém (o
Infinito, o Absoluto, ou, se quiser, Deus) que fundamenta a tudo e a todos.
Creio que é dispensável lembrar que não estamos aqui apenas para adquirir
conhecimentos técnicos em vista de nossa futura profissão. De forma alguma!
Também estamos aqui estamos para, ao longo do nosso curso, forjarmos os futuros
cidadãos. Características dos verdadeiros homens e mulheres são não só a
competência técnica, mas a paixão pelos outros homens e mulheres,
particularmente os que mais sofrem e que mais precisam de nossas mãos e de
nosso coração.
Por
isso, meu caro, desejo que você tenha um bom semestre e, de fato, aproveite
para a vida os conhecimentos adquiridos em sala de aula. Conte comigo.
Prof.
Renato Moreira de Abrantes
UNIDADE I: CULTURA
RELIGIOSA NA UNIVERSIDADE
Que perda de tempo!
Talvez o aluno recém-chegado à
Faculdade Católica Rainha do Sertão se indague a respeito da utilidade de uma
disciplina como Teologia em seus cursos de graduação. Outra disciplina mais
técnica, ou mais aproveitável ao curso, deveria ser ofertada e, assim, haveria
um andamento mais rápido.
Para que estudar filosofia/teologia
no Curso de Fisioterapia?
Julgo que poderíamos responder a
esta pergunta com outra pergunta: para que viver?
O homem, como teremos a oportunidade
de ler e ouvir, aqui e em muitos outros lugares, é um complexo formidável.
Seria uma lástima reduzi-lo simplesmente a um aglomerado de células que, em
conjunto, viabilizam a existência. Não somos um “pedaço de carne”; não somos
apenas matéria. Pouco nos questionamos sobre o elemento que anima de fato a vida.
Assim como não podemos considerar
apenas a “materialidade” da vida, pois o homem é corpo, mas também ALMA, também
não podemos dar embasamento teórico e prático apenas para a formação
intelectual. Esta é importante, mas não a única. Temos que formar, também o
ESPÍRITO.
Há os que não se voltam para estas
realidades. Assim, os empiristas, os positivistas, que não crêem na
possibilidade de existir algo mais que a experiência sensível ou que a matéria.
Ou os ateus, que não acreditam que Deus possa existir e interferir no mundo.
Respeitemo-los.
Porém, antes de tomar uma decisão
intelectual a respeito de assuntos tão graves, julgo ser mais honesto ouvir e
estudar o ensinamento de uma vertente espiritual que já tem dois milênios de
existência e é acolhida por cerca de um bilhão e meio de habitantes do planeta
Terra.
No pleno respeito às diferenças
religiosas, nossa linha a ser seguida no estudo desta disciplina será a
proposta cristã-católica e sua doutrina nos campos espiritual e moral.
Texto:
Cultura Religiosa na Universidade
Luis
Henrique Marques - Jornalista
“Há quem
ainda se debata com a questão da existência de Deus — sobretudo agora com a
pretensa atitude do homem em criar clones, quem sabe, humanos — e, por tabela,
sobre o valor da religiosidade na sociedade. E não é só: a própria miséria
humana já é motivo, para muitos, mais que suficiente para a descrença em Deus e
a negação da religião.
Pois bem,
antes de tudo, é preciso que se diga o que muita gente já sabe ou deveria
saber: Deus e a religião são realidades distintas. A primeira é perfeita e fim
em si mesma; a segunda realidade, imperfeita — porque humana -, não é fim, mas
meio através do qual se chega ao Infinito. Logo, fica quase óbvio concluir que
a concepção e, em particular, o uso da religião são capazes de aproximar mais
ou menos o homem de Deus e, por conseqüência, o homem de si mesmo e do seu
semelhante.
Ora, para
compreender até que ponto as práticas religiosas — quaisquer que sejam — estão
contribuindo para a relação equilibrada do homem consigo mesmo, com o outro e
com Deus, é necessário que se reflita criticamente. E mais: é preciso
desmistificar o fenômeno religioso na sociedade, de modo a superar antigas e
retrógradas visões da prática religiosa, como também promover a sua
“re-criação”, sempre mais sintonizada com a realidade do nosso tempo.
Esses são pois,
propósitos da reflexão teológica desenvolvida por muitas universidades confessionais
junto aos alunos de todos os seus cursos. As disciplinas que abordam tal
temática recebem nomes diversos, conforme a instituição: Teologia, Cultura
Religiosa, Antropologia Filosófica, entre outros. O fato é que parecem ter uma
primeira preocupação comum: orientar o universitário para a reflexão sobre Deus
e sua relação com o ser humano. A seguir, vem a reflexão sobre a religião,
conforme dito acima.
E, evidente
que o aluno do curso de Direito, Enfermagem, Fisioterapia, Administração,
Turismo, Publicidade e Propaganda ou Engenheiros, em princípio, não esteja
preocupado com esse tipo de reflexão. Daí, a sua natural resistência à
disciplina.
Afinal,
antes de ser profissional, o universitário é um ser humano e como tal busca a
felicidade, razão e valor pleno para a vida. O que talvez ele não tenha se dado
conta ainda é que na alma — campo por excelência na qual Deus se revela ao
homem — reside toda a possibilidade de felicidade. Logo, se unir-se a Deus
significa encontrar a felicidade, valer-se da religião para unir as realidades
humanas e divinas, significa promover o encontro do homem com o valor pleno da
vida humana.
A
experiência religiosa é verdadeira, sobretudo quando concreta. Enquanto for
apenas discurso, é vazia e imatura. Por outro lado, o homem é um todo do qual
faz também sua racionalidade. À reflexão teológica (aliada particularmente à
filosofia) cabe sustentar e amadurecer a prática religiosa. As conclusões às
quais o aluno pode chegar a partir de sua reflexão íntima são de responsabilidade
e interesse exclusivamente seus”.
QUESTÕES
PARA REFLEXÃO/DEBATE
1. O QUE ACHEI
DO TEXTO?
2. EM QUE
CONCORDO COM O AUTOR?
3. EM QUE NÃO
CONCORDO?
4. O QUE
PODERÍAMOS ACRESCENTAR À REFLEXÃO?
1.
Introdução à Teologia
Na origem, o homem se entendia como fazendo parte de
um conjunto dominado por forças que o envolviam completamente e condicionavam
todos os passos de sua existência. Essa percepção de integração, mais do que de
dependência, se traduzia na linguagem mítica, que até hoje serve para exprimir realidades
fundamentais para o homem, como pessoa e para a sociedade.
Contudo, a organização da vida terrena e a
progressiva distinção entre um além ou um lá no alto, distinto do agora e do
aqui em baixo, levam o homem a alimentar uma sensação de impotência, de
separação, de fraqueza, de morte ou mesmo, de pecado, atribuindo o poder e a
força às potências do alto, de que se sentia cada vez mais dependente.
A subjetivação destas potências, de que as forças
cósmicas seriam as expressões, leva a falar dos espíritos celestes ou dos
orixás, que lá do alto encaminham os mortais pelas veredas, às vezes tortuosos
desse mundo.
Assim como aqui em baixo a unidade do grupo dependia
de um chefe, verifica-se uma transposição dessa necessidade de unidade e de
chefia para as potências do além, de um espírito supremo, um Deus. Sem que se
possa generalizar, os dados que possuímos não nos autorizam a falar nem de
monoteísmo, nem de politeísmo. Verifica-se uma simples transposição para o
mundo do alto e do além, das necessidades experimentadas na vida terrena. Esta,
aliás, por sua inversão compreensível, acaba sendo concebida como reflexo e
imagem do além, de que dependeria em todos os seus momentos e em todos os seus
valores.
A grande ruptura desse paralelismo céu - terra, que conferia
ao monarca o papel de representante de Deus, teve lugar na manifestação
religiosa propriamente monoteísta, que caracteriza o fenômeno religioso judeu.
Deus se revela a Moisés como totalmente outro. Seu poder não é como o deste
mundo, nem passa pelo monarca, mas pelo povo, uma tribo odiada e oprimida.
Moisés se torna o arauto de uma nova teocracia, não representada pelo Rei, mas
pelo reconhecimento do Altíssimo, a que estão sujeitas todas as coisas, e, por
conseguinte, toda vida e todo o universo. O Senhor é Aquele que é inominável,
de quem dependem tudo e todos.
O monoteísmo hebraico é um fenômeno religioso
absolutamente original que se impõe através de duas notas essenciais: Deus é
Senhor absoluto de todas as coisas e, nesse sentido, a religião é, por
natureza, universal. Tudo e todos estão totalmente submissos a Ele.
Mas, nem por isso Ele se impõe. Não oprime nem
escraviza o homem, que dele se deve aproximar, na liberdade da fé e no
acolhimento do seu chamado. O nascimento no seio do povo eleito não é uma
garantia de salvação, mas uma exigência de fidelidade, que muitas vezes foi
rompida com graves conseqüências para os faltosos e para todo o povo.
No contexto desse fenômeno religioso maior, que é o
judaísmo, se apresenta Jesus. Ele vem como filho de Deus, não porém na
autoridade do inominável, mas como um dos nossos, feito homem de carne e osso,
nascido, como todos nós, de uma mulher. O monoteísmo é mantido, mas a religião
ganha um novo centro, a relação interpessoal, pois o Filho, consubstancial ao
Pai, se encarnou e se fez um de nós.
O cristianismo abriu assim um novo capítulo na
história religiosa da humanidade. O homem se realiza como homem e encontra um
sentido para sua vida, na prática da justiça e da solidariedade, seguindo o
caminho indicado e aberto por Jesus. O ungido de Deus é o Filho, que, porém,
não vem como um monarca, para submeter todas as coisas, mas como um de nós,
como servidor comprometido com os pobres e os oprimidos, mostrando o caminho da
justiça e da fraternidade, como a via que conduz ao reino e à salvação.
O fato cristão relativizou a religião. A instituição
e as práticas religiosas passam a ter como invariante e principal critério, não
tanto o reconhecimento de Deus, inscrito na componente religiosa do homem, mas
o reconhecimento do outro e a prática, na liberdade, da verdade, da justiça e
do amor, em sociedade.
Sem cristianismo não haveria igreja nem, muito
menos, pluralismo religioso. A religião se basearia sempre num dado que se
imporia ao homem, nem que fosse, apenas radicalmente, como a pertença ao povo
eleito. No cristianismo, somos nós que construímos a Igreja, que estruturamos a
religião a partir de nossa fidelidade no amor, que está na base da sociedade e
é expressão suprema da liberdade.
O Evangelho é palavra de libertação, inclusive
religiosa. Na expressão de Gauchet, o cristianismo é a religião da superação da
religião.
É verdade de que ao examinar o cristianismo,
percebe-se que os cristãos se deixaram profundamente influenciar pela inércia
cultural do pensamento grego e das instituições romanas. Constituíram uma
ortodoxia e um império cristãos, que trazia, porém, em seu bojo, os fermentos
de um despertar da razão e da subjetividade humanas, chamadas à auto-realização
na liberdade e na prática do amor.
2.
O que iremos estudar
nesta disciplina?
Teologia
Teologia, em seu
sentido literal, é o estudo sobre Deus (do grego θεóς, theos, "Deus"; + λóγος, logos, "palavra", por extensão,
"estudo"). Como ciência tem um objeto de estudo: Deus. Entretanto como
não é possível estudar diretamente um objeto que não vemos e não tocamos,
estuda-se Deus a partir da sua revelação. No Cristianismo isto se dá a partir da revelação de Deus
na Bíblia. Por isso, também se define
"teologia" como um falar "a partir de Deus" (Karl Barth).
Este termo foi usado pela primeira vez por Platão, no diálogo A República, para
referir-se à compreensão da natureza divina por meio da razão, em oposição à compreensão literária própria da poesia feita por seus conterrâneos. Mais tarde, Aristóteles empregou o termo em numerosas ocasiões,
com dois significados:
- teologia como o ramo fundamental da ciência filosófica, também chamada filosofia primeira (METAFÍSICA) ou ciência dos primeiros princípios, mais tarde chamada de metafísica por seus seguidores;
- teologia como denominação do pensamento mitológico imediadamente anterior à Filosofia, com uma conotação pejorativa, e
sobretudo utilizado para referir-se aos pensadores antigos não filósofos
(como Hesíodo e Ferécides de Siro).
Santo Agostinho
tomou o conceito "teologia natural" da obra Antiquitates rerum
humanarum et divinarum, de M. Terêncio Varrão, como única teologia
verdadeira dentre as três apresentadas por Varrão: a mítica, a política e a natural. Acima desta, situou a teologia
sobrenatural (theologia supernaturalis), baseada nos dados da revelação
e, portanto, considerada superior. A teologia sobrenatural, situada fora do
campo de ação da Filosofia, não estava subordinada, mas sim acima da última,
considerada como uma serva (ancilla theologiae) que ajudaria a primeira
na compreensão de Deus.
Teodicéia, termo empregado atualmente como sinônimo de teologia
natural, foi criado no século XVIII por Leibniz, como título
de uma de suas obras (chamada "Ensaio de Teodicéia. Sobre a bondade de
Deus, a liberdade do ser humano e a origem do mal"), embora Leibniz
utilize tal termo para referir-se a qualquer investigação cujo fim seja
explicar a existência do mal e justificar a bondade de Deus.
Na
tradição cristã (de matriz agostiniana), a teologia é organizada segundo os
dados da revelação e da experiência humana. Estes dados são organizados no que se conhece
como Teologia Sistemática ou Teologia Dogmática.