NOTA DE AULA IV
3. O HOMEM COMO SER DE AUTODETERMINAÇÃO
Ao tratar do livre-arbítrio, Sto. Agostinho discorre sobre
muitos outros assuntos extremamente relacionados a este, por exemplo, sobre a
natureza de Deus, sobre a individualidade e unidade das criaturas e etc. Isso
porque a noção de livre-arbítrio está intimamente relacionada com a concepção
de Deus e com a individualidade e unidade do ser.
Para os gregos, que consideravam o homem como uma parte de
um todo e não um ser individual na sua essência, não havia livre-arbítrio, mas
sim destino, pois era a natureza, o Pan, que condicionava o futuro dos homens,
partes desse Todo. Eram panteístas e, em decorrência disso também, acreditavam
na astrologia.
Para os maniqueus, que afirmavam a existência de duas almas
no homem, de dois princípios opostos, um bom e outro mau, que as ações humanas
eram boas ou más conforme a ação dessas almas, os atos humanos eram
determinados pela natureza do próprio homem, como, por exemplo, sentir fome.
Para eles, portanto, não havia livre-arbítrio. Santo Agostinho:
"...aqueles que, observando em todas as decisões a
existência de duas vontades, afirmam a existência de duas almas com naturezas
diversas, uma boa e outra má." (Confissões, VIII, 10)
Sto. Agostinho, por outro lado, com provas racionais em
harmonia com a doutrina da Igreja Católica, considerava o homem como um ser
individual, e Deus transcendente ao mundo. Com isso, não caiu no erro dos
gregos, panteístas, nem no dos maniqueus, dualistas; erros que levam à anulação
do livre-arbítrio.
Portanto, esses dois assuntos (a concepção de Deus e a
individualidade e unidade do ser) são de extrema importância para falar
sobre o livre-arbítrio em Sto. Agostinho.
Por se tratar de um tema extremamente espinhoso e fonte de
inúmeras discussões, poucos se colocaram a estudá-lo e a explicá-lo; e os
poucos comentários que existem sobre esse livro, não são recomendáveis, porque
não são fiéis, como por exemplo, o comentário de Lutero.
É interessante, e mesmo importante para boa compreensão dos
textos de Sto.Agostinho, alguns livros que tratam do livre-arbítrio baseados em
Santo Agostinho ou pelo menos em harmonia com seu pensamento, como por exemplo,
a questão LXXXIII, da primeira parte da Suma Teológica de São Tomás; o livro
"Para a Inteligência do Dogma da Providência" do
Pe.Garrrigou-Lagrange e o "Liberdade e Determinismo", do Pe. Leonel
Franca. São livros que servem como guias para esse assunto.
Mas, afinal, somos livres, mesmo diante de nossas
debilidades? Assistamos ao vídeo abaixo, talvez já conhecido de muita gente:
E, para entender Santo Agostinho e o Livre Arbítrio,
vamos estudar o artigo abaixo:
O LIVRE-ARBÍTRIO
COMO UM BEM PROVENIENTE DE DEUS DE ACORDO COM O LIVRO II DA OBRA O LIVRE-ARBÍTRIO
DE SANTO AGOSTINHO
Wellington Carvalho de Macêdo[1]
O presente texto estuda o tema da
vontade livre do homem segundo o Livro II da obra O livre-arbítrio[2]
de Santo Agostinho. A temática desse texto está voltada para a argumentação de
Agostinho na tentativa de provar que o livre-arbítrio é um bem e proveniente de
Deus. O texto aqui desenvolvido, começa apresentando uma breve contextualização
da obra em questão, o porquê seu autor a escreveu e o seu método.
Posteriormente, será tematizada a prova agostiniana da existência de Deus. Com
isso, será discutida a argumentação a favor do livre-arbítrio como um bem,
culminando na afirmação de que ele provém de Deus. A questão do mal também será
estudada, tendo em vista que, segundo Agostinho, o mal está ligado ao fato do
homem possuir a vontade livre. Por fim considerar-se-á que o mal está ligado à
moral.
PALAVRAS-CHAVES: Agostinho, livre-arbítrio, Deus, bem, mal, moral.
1
INTRODUÇÃO
Depois de convertido ao cristianismo católico e batizado,
Agostinho tenta voltar a Tagaste, na África do Norte. No entanto, sua mãe[3]
falece, enquanto eles esperavam a partida da embarcação que os levaria à
Tagaste. Motivado pela morte de sua mãe, Agostinho decide ir e ficar em Roma no
inverno do ano de 387 e todo o ano de 388.
Desejando prevenir seus amigos e, se possível um bom número
de pessoas, da doutrina errônea e equívoca dos maniqueus[4],
Agostinho escreve vários tratados entre os quais O livre-arbítrio.
Agostinho começa a escrevê-lo em 388. Ao voltar para Tagaste continua a
escrevê-lo, mas, só o termina em Hipona, África do Norte, por volta de 394/95,
quando já é sacerdote[5] da
Igreja Católica[6].
Agostinho defende que o livre-arbítrio é sempre um bem
concedido ao homem por Deus, mesmo que o homem utilize-o de forma errônea, o
que provoca o mal. Para sustentar tal afirmação, Agostinho desenvolve uma das
teorias mais interessantes do período Medieval, acerca da liberdade, da vontade
e do mal.
2
PRIMEIRAS ASSERÇÕES
A obra O livre-arbítrio é escrito em forma de
diálogo, entre Agostinho e seu amigo Evódio, e trata sobre a vontade livre do
homem e a origem do mal[7]. A
principal afirmação de Agostinho é que o livre-arbítrio[8] é
um bem concedido por Deus.
No Livro I do O livre-arbítrio, Agostinho e Evódio chegam à
conclusão que o homem possui o livre-arbítrio (a vontade livre). Porém, diante
da afirmação de Agostinho de que o livre-arbítrio é um bem dado por Deus,
Evódio levanta um problema ao afirmar que é por tal liberdade que o homem peca:
“O quanto me parece ter compreendido no livro anterior, é que nós só possuímos
o livre-arbítrio da vontade, mas acontece ainda que é unicamente por ele que
pecamos” (Agostinho, 1995, p. 73).
Essa afirmação de Evódio envolve várias implicações.
Agostinho acredita que o livre-arbítrio é um bem e, sendo assim, só pode provir
de Deus, pois este é a fonte de todo o bem. Porém, se é por esta liberdade de
juízo que o homem peca e, sendo o pecado um mal, ter-se-ia dois problemas
fundamentais: o primeiro, se realmente o livre arbítrio é um bem; o segundo, se
é por ter a capacidade de livre arbitrariedade que o homem peca, como pode essa
capacidade ter sido dada por Deus, que é fonte exclusiva de todo o bem?
É importante ter em mente que mesmo Agostinho sendo cristão
e fervoroso na fé, na sua investigação, junta dois meios: fé e razão. Segundo o
pensamento agostiniano, não basta apenas ter fé, é necessário saber sobre o que
se acredita. E também não basta apenas mover-se pela razão, pois, para que essa
seja eficiente, é necessário acreditar no que se investiga. Primeiramente,
Agostinho crê e, a partir da crença, investiga sua verdade. Assim, Agostinho se
manifesta sobre o crer para entender:
[...] Com efeito se crer não fosse uma coisa e compreender
outra, e se não devêssemos, primeiramente, crer nas sublimes e divinas verdades
que desejamos compreender, seria em vão que o profeta teria dito: ‘Se não o
credes não entendereis’[9] (1995, p. 73).
Portanto,
em sua ivestigação sobre o livre-arbitrio, Agostinho primeiramente prova a
existência de Deus[10]. Depois, prova que o livre-arbítrio é um bem
e, por conseguinte, provém de Deus.
3 A PROVA DA
EXISTÊNCIA DE DEUS
Para chegar à existência de Deus, Agostinho parte do único
ser que pode fazer tal investigação: o homem. Agostinho começa afirmando que há
três realidades: existir, viver e entender. Dessas três, a mais excelente é a
última. Isso porque, aquele que só
existe não vive e nem entende (ex.: objetos inanimados); aquele que só vive,
existe, porém não entende (ex.: os animais irracionais); e aquele que entende
necessariamente existe e vive (ex.: o homem). Assim, Agostinho expressa: “E
admitimos, igualmente, que a melhor das três é a que só o homem possui,
juntamente com as duas outras, isto é, a inteligência, que supõem nela o
existir e o viver” ( 1995, p. 81).
Agostinho parte do homem porque, partindo da criatura mais
completa, chega-se ao criador perfeito. Não que se consigua entender o criador,
o que seria impossível, mas ao menos consegue-se comprovar sua existência.
O homem, criado por Deus, possui os sentidos exteriores[11] -
visão, audição, tato, paladar, olfato -, que lhe possibilita os primeiros
contatos com a realidade. Cada sentido exterior tem sua finalidade e uma
categoria de objetos exteriores[12]
que lhe é possível identificar, muito embora alguns objetos são identificados
por mais de um sentido, mesmo sendo por vias e características diferentes.
A respeito desse raciocínio, Agostinho indaga a Evódio:
“Compreendes, pois, igualmente, que cada sentido tem certos objetos próprios
sobre os quais nos informam, e que alguns dentre eles percebem objetos de modo
comum?”( Ibidem, p. 83). Evódio responde: “Comprendo também isso” (Ibidem, p.
83).
Portanto, de acordo com Agostinho, o homem é dotado de
sentidos exteriores que lhe permite identificar os objetos exteriores e cada um
tem características e objetos próprios. Mas, há objetos que são identificados
por mais de um sentido, mesmo que por vias diferentes. O som, por exemplo, só
pode ser identificado pelo sentido da audição. Porém, algo sólido pode ser identificado
tanto pela visão como pelo tato.
No entanto, o que faz o homem distinguir o que cabe a cada
sentido exterior e o que é comum a eles identificar não são os próprios
sentidos exteriores, mas o sentido interior, que é comum ao homem e ao
animal. Tal sentido é a faculdade que faz o homem ou o animal, a partir do que
observa pelos sentidos exteriores, buscar ou não o que foi observado. Sobre
esse assunto, Evódio afirma:
Graças a esse sentido interior, todos os objetos, não
somente os apreendidos pela vista, mas também pelo ouvido e pelos outros
sentidos corporais, são: procurados e apossado, [...], no caso de isso lhes
causar agrado; ou bem, evitados e rejeitados no caso de lhes serem nocivos. Mas
esse sentido interior não se pode dizer que seja, nem a vista, nem o ouvido,
nem o olfato, nem o gosto, nem o tato. Ele é, não sei que outra faculdade
diferente, que governa universalmente a todos os sentidos exteriores, por
igual. (Agostinho, 1995, p. 83).
Agostinho concorda com Evódio: “Admito a existência dessa
faculdade, seja ela qual for, e sem hesitação denomino-a sentido interior”
(Ibidem, p. 84).
Esse sentido interior não é a razão[13],
pois, tanto Agostinho quanto Evódio, admitem que o animal também o possui, dado
que ele tem a capacidade de rejeitar ou não o que capta pelos seus sentidos
exteriores. Não admitem que esse sentido interior seja a razão, pois, se o
admitissem, por conseqüência, admitiriam que o animal também é dotado de razão,
o que não é verdade.
O sentido interior é precedente à razão e, é somente pela
razão que o homem identifica a ação desse sentido interior. Ou seja, é pela
razão que o homem delibera acerca do que é percebido pelos sentidos exteriores,
que são movidos pelo sentido interior. Portanto, para Agostinho, a razão está,
em nível de importância, acima do sentido interior, que por sua vez, está acima
dos sentidos exteriores.
Constata-se, pois, uma escala ascendente no ser que
entende: cabe aos sentidos exteriores captarem e absorverem as características
dos objetos exteriores; ao sentido interior cabe direcionar os sentidos
exteriores a buscar ou não os objetos exteriores; e, por fim, à razão cabe
assimilar e processar[14]
as informações absorvidas e transformá-las em conhecimento. Em suma, a escala
ascendente no homem é: sentidos exteriores, sentido interior e razão.
Na natureza do homem - o único ser que existe, vive e
entende - o que há de mais sublime é a razão. Portanto, na escala dos seres não
há nada que esteja acima da razão. No entanto, existem verdades que são
captadas pela razão, mas que lhe são superiores: os números e a sabedoria.
Agostinho defende que a verdade dos números e da sabedoria
está acima da razão, por esta verdade transcender o mundo sensível. Os números
não são criados ou estabelecidos a partir das coisas sensíveis. Para Agostinho,
a verdade dos números existe fora do mundo sensível e, é pela razão que o homem
consegue identificá-la e atribuí-la às coisas sensíveis. Isso porque os números
possuem uma lógica imutável, estável e inabalável, que transcende os sentidos
exteriores. Agostinho demonstra a lógica perfeita dos números:
Além do mais, seguindo a série dos números, vemos que
depois do um vem o dois, e esse número comparado ao precedente é o seu dobro.
Contudo, o dobro de dois não vem logo depois dele, mas sim o três, por meio do
qual se chega ao quatro, que é o dobro de dois. [...] Assim, pois, vai
acontecer com todos os outros o que foi verificado com o primeiro par de
números, isto é, com o um e o dois, a saber: acrescentando a um número qualquer
a série de unidades que ele conta, a totalidade obtida é o seu dobro (1995, p.
103).
Por fim, ele atesta:
[...] mas igualmente a quem a teimosia não envolveu nas
trevas, são forçados a reconhecer que a lei e a verdade dos números escapam ao
domínio dos sentidos corporais, e que essas leis são universais e puras,
oferecendo-se universalmente aos olhos de todos aqueles que são capazes de raciocínios
(Agostinho, 1995, p. 104).
Em relação à sabedoria, Agostinho diz que ela é o único
meio verdadeiro para se chegar ao Sumo Bem[15].
No pensamento agostiniano, a sabedoria, assim como os números, também é
imutável, estável, inabalável e transcende ao sensível. Chegar ao Sumo
Bem é o desejo de todos, dado que alcançá-lo resulta em conseguir atingir a
felicidade[16] e não
há alguém que não a queira. A respeito disso, Agostinho escreve:
Portanto, como é certo que todos queremos ser felizes, é
também certo que queremos possuir a sabedoria. Pois ninguém é feliz sem a posse
do sumo Bem, cuja contemplação e posse encontra-se nessa verdade que
denominamos sabedoria (1995, p. 107).
Agostinho afirma que todos desejam e buscam atingir o sumo
Bem que é único e comum a todos. Entende-se assim que, sendo a sabedoria o meio
verdadeiro para se chegar ao Sumo Bem, ela necessariamente tem que ser única e
comum a todos, devido ao objeto ao qual conduz também possuir essas
características.
Um exemplo que a sabedoria está acima da razão humana e que
é somente captada por ela, pode ser ilustrado na proposição: os bichos não
entendem. Não é a razão do homem que determina que os bichos não entendem. Essa
verdade existe por si mesma, o homem apenas a apreende da realidade. Mesmo que
o homem não perceba, os bichos continuaram sem poder entender, dado que não
possuem a faculdade racional. Portanto, não é o homem que atribui verdade às
coisas, o homem a capta. A sabedoria existe por si, o homem a apreende.
Agostinho afirma uma sabedoria única, imutável e comum a
todos, tomando como exemplo as virtudes, pois é de comum acordo que para o
homem ser virtuoso só há um caminho: agir bem. Para tal fim, é necessário ser
sábio, porque sem a sabedoria não é possível deliberar corretamente. Segundo
Agostinho, só há um modo de agir bem, negar àquilo que corrompe e prejudica o
espírito e praticar ações que elevam o espírito – agir bem. Esse pressuposto é
comum e imutável a todo o homem.
Portanto, apesar de toda a pluralidade de conhecimento,
existe uma sabedoria transcendente que é única e imutável. E esse é o caminho
verdadeiro que conduz ao Sumo Bem, que efetiva a felicidade. Agostinho conclui:
Portanto, quanto verdadeiras e imutáveis são aquelas leis
dos números, das quais, como dizias anteriormente, apresentam-se de modo
imutável e universal a todos os que as consideram, e tanto são igualmente
verdadeiras e imutáveis as regras da sabedoria (1995, p. 113).
Apesar dos números e da sabedoria serem verdades únicas e
imutáveis, uma não é superior à outra. Elas são idênticas. Ao afirmar isso,
Agostinho mostra que existe uma Verdade suprema e indubitável, da qual provêm
outras verdades. Essa Verdade é Deus, do qual provém a vontade livre:
Eis no que consiste a nossa liberdade: estarmos submetidos
a essa verdade. É ela o nosso Deus mesmo, o qual nos liberta da morte, isto é,
da condição de pecado. Pois a própria Verdade que se fez homem, conversando com
os homens, disse àqueles que nela acreditavam: ‘Se permanecerdes na minha
palavra sereis, em verdade, meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará’[17]
(Ibidem, p.121).
O Deus de Agostinho não é qualquer deus. Mas sim, o Deus
único e verdadeiro, revelado[18]
por seu filho Unigênito, Jesus Cristo[19],
e divulgado pelo testemunho dos seus apóstolos e discípulos. Esse pensamento
não aparece textualmente no Livro II da obra O Livre-Arbítrio,
mas pelo fato de Agostinho ter sido presbítero e Bispo da Igreja Católica,
pode-se tranqüilamente afirma-lo. No entanto, o que importa é que Agostinho
afirma e comprova a existência de Deus:
Deus, pois, existe! Ele é a realidade verdadeira e suma,
acima de tudo. E eu julgo que essa verdade não somente é objeto inabalável de
nossa fé, mas que nós chegamos a ela, pela razão, como sendo uma verdade
certíssima, ainda que sua visão não nos seja muito profunda, pelo conhecimento
(1995, p.126).
Deus é, para Agostinho, a fonte de todo o bem. Por
conseguinte, sendo o livre-arbítrio um bem, é lógico que esse há de ser
concedido por Deus. Após a constatação da existência de um Deus único e fonte
de todo o bem, cabe investigar o que Agostinho pensa a respeito do
livre-arbítrio como um bem proveniente de Deus.
4 O
LIVRE-ARBÍTRIO COMO UM BEM PROVENIENTE DE DEUS
Agostinho afirma que todo o bem procede de Deus: “[...] é porque
todos os bens, sejam eles quais forem, do maior ao menor, não procedem se não
de Deus” (Ibidem, p.133).
Agostinho acredita veementemente que Deus é o criador de
tudo o que existe. Sua fé se fundamenta principalmente na Sagrada Escritura.
Nela, encontra-se a afirmação: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn
1,1). Na concepção de Agostinho, Deus, Verdade imutável, criou tudo o que há,
razão porque toda a criação é um bem.
Sendo assim, persiste o problema já mencionado: Se Deus
criou tudo, o livre-arbítrio só poderia provir dele. Mas, se tudo o que provém
de Deus é um bem, como pode o livre-arbítrio ser um bem, se é por ele que o
homem peca? Agostinho afirma:
Ora, essas duas verdades: que Deus existe e que todos os
bens vêm dele, nós já admitimos com fé inabalável. Entretanto, nós a expusemos
de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente, a
saber: que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus
(1995, p.134).
Segundo Agostinho, se o homem não tiver a capacidade de
livre escolha, não é possível caracterizá-lo como justo. Isso por que, mesmo
que ele pratique a justiça, se não for por livre vontade, mas por uma
imposição, não age virtuosamente, pois age por falta de possibilidades.
Do mesmo modo, se não houver a livre vontade, não se pode
condenar o homem injusto, pois a ação que o caracterizaria como tal, não seria
responsabilidade sua, mas conseqüência da falta de possibilidades. Alguém que
age injustamente por falta de possibilidades, não é culpado por suas ações.
Sendo assim, para Agostinho, o livre-arbítrio já é
considerado um bem pelo fato de que é por possuí-lo que o homem pode ser
considerado justo ou injusto. Ora, ao possuir a liberdade de escolha o homem
pode deliberar sobre suas ações. Portanto, se agir bem ou mal a
responsabilidade é sua. Agostinho diz
que:
[...] se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade,
como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando
os pecadores e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não
seria pecado, nem boa ação, caso não fosse voluntária (1995, p.75).
A afirmação agostiniana de que o livre-arbítrio é um bem,
se fundamenta no fato de derivar dele a capacidade do homem poder escolher
entre o que é bom e o que é ruim, possibilitando o desenvolvimento livre do seu
espírito. Ao optar pelo bem voluntariamente o homem se torna digno de louvor.
Por outro lado, ao optar por não fazer o bem, pode ser repreendido. Para
Agostinho, o bem em relação ao livre-arbítrio está no fato de que por ele, Deus
concede ao homem o ‘poder’ de escolher voluntariamente fazer o bem.
Portanto, o livre-arbítrio é um bem porque por ele o homem
tem a capacidade de tornar seu espírito mais pleno e próximo de Deus
livremente. No entanto, mesmo sendo o livre-arbítrio um bem dado por Deus, é
por ele que o homem tem a possibilidade de pecar. Agostinho afirma que o pecado
está na errada utilização da vontade livre. O homem tem duas grandes escolhas
centrais: fazer ou não fazer o bem. Quando o homem escolhe não fazer o bem,
peca. Mas, ainda que isso possa acontecer em nada diminui que o livre-arbítrio
é um bem.
Agostinho exemplifica: “Com efeito, vês que grande privação
é para o corpo não ter as mãos, e, contudo acontece que há quem use mal das
próprias mãos. Realizam com elas ações cruéis e vergonhosas” (Ibidem,
p.136).
Em outras palavras, a mão é um bem, mas também pode ser
utilizada para o mal. No entanto, o fato do homem utilizá-la de forma errônea
não neutraliza nem contradiz o fato dela ser um bem, pois, na sua ausência, o
homem é prejudicado, porque perde parte da sua agilidade e autonomia
natural.
Semelhante é com o livre-arbítrio, no pensamento de
Agostinho. Por mais que o homem utilize erroneamente a vontade livre, ela
continua sendo um bem. Pela sua bondade, Deus concedeu esse dom ao homem, pelo
qual ele não é escravo das ‘vontades’ divinas, mas, é livre para optar pelo
bem. O bem não é imposto por Deus. O bem é possibilitado por Deus.[20]
Verdadeiramente
o livre-arbitrio é um bem proveniente de Deus, como Agostinho sistematiza e
prova. No entanto, há um último ponto a
tratar. Agostinho diz que a liberdade da vontade está no fato de escolher entre
fazer ou não fazer o bem, mas e o mal que é o pecado, de onde vêm?
O pecado é possível devido ao livre-arbítrio. Diante dessa
afirmação, retoma-se a indagação anterior: sendo o livre-arbítrio o que
possibilita o surgimento do pecado e, sendo ele proveniente de Deus, é Deus a
causa do pecado? Agostinho responde que o pecado não provém de Deus, mas provém
do livre afastamento de Deus. O pecado é a negação do bem.
Agostinho não acredita que haja uma causa eficiente do mal[21].
A única causa eficiente metafísica-ontológica que existe é o Sumo Bem, Deus. O
mal não provém de uma entidade divina. Ele só passa a existir quando o homem
não faz o bem.
Tem-se, pois, a prova agostiniana de que o mal não vem de
Deus. É o homem que o gera quando, em sua liberdade, pratica atos que se
contrapõem ao bem. Portanto, o mal é a conseqüência do uso deficiente do
livre-arbítrio. Se o homem utilizar a vontade livre corretamente, o mal não
existirá.
Portanto, mesmo que o homem peque, a vontade livre continua
sendo um bem dado por Deus. Deus não é a fonte do mal, pois esse acontece não
porque Deus o faz, mas porque o homem, que deveria livremente fazer o bem, opta
por não faze-lo. O mal é de cunho moral, pois surge de acordo com a conduta do
homem.
5
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fica explícita a contestação
agostiniana às idéias maniquéias. Enquanto para os maniqueus há dois princípios
do que é existente, Deus (o Bem) e Satanás (o Mal), para Agostinho, só há um
princípio, Deus – o Sumo Bem. Para os maniqueus o homem já nasce bom ou mau,
para Agostinho o homem é sempre um bem, porém torna-se mau quando contraria o
bem por sua livre vontade.
Na concepção de Agostinho, Deus
concedeu o livre-arbítrio ao homem para que agisse retamente e optasse por
praticar o bem voluntariamente, não o obrigando a agir bem, mas possibilitando
que ele o fizesse. Porém, quando o homem não utiliza sua vontade livre para
fazer o bem, torna-se causador do mal. Não há, segundo Agostinho, um ser
transcendente que faz com que o mal aconteça. O mal surge, quando o homem, pela
sua livre vontade, nega-se a fazer o bem.
Agostinho defende que o
livre-arbítrio é um bem, mesmo que o homem o utilize de maneira errada, pois,
foi-lhe dado para que deliberadamente agisse retamente a fim de que seu
espírito seja elevado à Deus e possa gozar da verdadeira felicidade. Tudo que
Deus fez é um bem indubitavelmente.
6 REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de
Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
AGOSTINHO,
Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os Pensadores).
_____.
O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. p. 73. (Os Pensadores).
BÍBLIA.
Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1985.
CATECISMO. Catecismo
da Igreja Católica. São Paulo:
Loyola, 200.
LORENZO,
Alvarez et al. Lexicon – Dicionário Teológico
Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003.
MARTINS FILHO,
Ives Granda da Silva. Manual esquemático de história da filosofia. 2.ed.
São Paulo: LTr, 2000.
[1]
Acadêmico do 3º Semestre do Curso de Filosofia da Faculdade Palotina – FAPAS.
[2]
Tradução para o português, introdução e notas de Nair de Assis Oliveira;
revisão de Honório Dalbosco.
[3]
Sua mãe, de nome Mônica, hoje é considerada Santa pela Igreja Católica. Do
ponto de vista religioso a conversão de Agostinho ao Cristianismo deve-se à
assídua oração de Mônica a Deus pedindo que seu filho se convertesse. Para
saber a respeito de Mônica e de sua importância na conversão de Agostinho
pesquisar AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
p. 94-96/145-147/239-253.
[4]
Doutrina na qual Agostinho participara antes de se converter ao Cristianismo.
Essa doutrina tem como verdade que o mundo é dividido e regido por dois principios: o Bem e o Mal. Foi elaborada
a partir da junção de três doutrinas: o zoroastro, o budismo, e o cristianismo.
E seu fundador foi Mani. (Cf.ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia.
4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 641.).
[5]
Agostinho foi ordenado não por iniciativa própria, mas pelo desejo do povo. Num
certo dia de 391, o bispo Valério de Hipona
perguntou à assembléia de sua diocese quem eles gostariam que exercesse
o ministério de coadjuntor nos serviços sacerdotais, especialmente na pregação.
O povo pediu que Agostinho fosse ordenado presbítero. Agostinho, de início, não
se agradou com a idéia, mas pelo povo decidiu exercer tal ministério. (Cf.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 9. (Os
Pensadores) ).
[6]
Igreja Católica Apostólica Romana.
[7]
Em Agostinho a problemática do mal pode ser dividida em três níveis: o primeiro
é relativo ao mal ontológico, que para Agostinho não existe; o segundo é relativo ao mal moral, que para
ele é o pecado; o terceiro é relativo ao mal físico, que ele caracteriza como
sendo as doenças e os sofrimentos, que são conseqüências do pecado original.
(Cf. MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual esquemático de história da
filosofia. 2.ed. São Paulo: LTr, 2000.).
[8]
Para Agostinho esse livre-arbítrio não apenas provém de Deus, mas também era
necessário que Deus o tivesse concedido ao homem: “[...] era necessário que
Deus desse ao homem essa vontade livre”. (AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio.
São Paulo: Paulus, 1995. p. 75. (Os Pensadores)).
[9]
Is 7,9.
[10]
A importância de se provar primeiro a existência de Deus está no fato de que,
para Agostinho, é dele que provém o livre-arbitrio. Sendo assim, para sustentar
que a vontade livre do homem é um bem, por provir de Deus, é necessário
primeiro provar que esse existe e que ele é a fonte de todo o bem.
[11]
‘Sentidos exteriores’ é uma expressão própria da tradutora. Agostinho os chama
de ‘sentidos corporais’. Porém, aqui será utilizado a primeira expressão.
[12]
Objetos exteriores são os objetos (coisas) que compõem o mundo sensível.
[13]
Razão: Referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja
possível a indagação ou a investigação. Nesse sentido, dizemos que a razão é
uma ‘faculdade’ própria da homem, que o distingue dos animais. (Cf.ABBAGNANO,
Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
p. 824.).
[14]
É atraves das ligações feitas pela razão que podemos fazer ciência.
[15]
É a plenitude de todos os bens. É o Ser que dá origem a todos os bens.
[16]
A verdadeira felicidade, nas palavras de Agostinho: “Há uma alegria que não é
concedida aos ímpios, mas só àqueles que desinteressadamente Vos servem: essa
alegria sois Vós. A vida feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por
Vós. Eis a vida feliz e não há outra.” (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões.
São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 281.).
[17]
Jo 8,31-32.
[18]
Em teologia, revelação significa: “Ato livre com que Deus comunica seu mistério
à humanidade convidando-a à partilha. O ponto mais alto da revelação é a
‘crística’. A revelação da palavra se fez ‘carne’ e o alfabeto de Deus toma
corpo na linguagem de Jesus de Nazaré. Esta revelação, como indica a Dei
Verbum no n. 4, deve ser considerada ‘definitiva’ e ‘completa’ porque em Jesus Cristo , Deus
diz tudo o que, no mistério de seu amor, queria comunicar à humanidade”. (Cf. LORENZO, Alvarez et al. Lexicon
– Dicionário Teológico Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003. p. 633.).
[19]
A Igreja Católica professa em sua fé que Jesus Cristo é o filho do Deus
Verdadeiro, é o verbo de Deus que se fez carne e habitou entre os homens. A
principal missão de Jesus segundo os que acreditam em sua divindade foi
‘revelar’ o amor de Deus Pai aos homens. (Cf.: Catecismo da Igreja Católica.
São Paulo: Loyola, 2000, p. 119.)
[20]
Cf.: AGOSTINHO, Op. cit. p. 136.
[21]
Os maniqueus afirmavam que o mal provinha de Satanás, que, para eles, é um ser
igual a Deus e fonte de todo o mal. Agostinho quer contrapor essa idéia, pois,
para ele, só há Deus. Não há outra entidade que esteja em igualdade a Deus e
que dê movimento ao mal. Nas palavras de
Agostinho: “Em, absoluto, o mal não existe nem para Vós nem para as vossas
criaturas, pois nenhuma coisa há fora de Vós que se revolte ou que desmanche a
ordem que lhe estabelecestes.” (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São
Paulo: Nova Cultural, 1996. p.188).