NOTA DE AULA III
2. O HOMEM COMO SER DE
TRANSCENDÊNCIA
Até aqui, já entendemos duas coisas:
a) a transcendência
do homem com relação aos animais e a todos os outros seres deste mundo; ele os
supera no pensamento, na liberdade, no trabalho, na palavra, na sociabilidade,
na técnica, no divertimento e em inúmeras outras coisas;
b) a transcendência
do homem em relação a si mesmo: em tudo o que ele faz, diz, pensa, quer e
deseja, ele não está nunca satisfeito com os fins já alcançados.
Interessa-nos, por enquanto, a segunda, porque é a
que mais sublinha e ilustra o MISTÉRIO do homem. Em uma palavra, o homem é
capaz de AUTOTRANSCENDÊNCIA.
O fenômeno da autotranscendência
A autotranscendência alcançou amplo reconhecimento
entre os pensadores do nosso tempo. Entre eles destacam-se os existencialistas,
os marxistas e os pensadores católicos.
Existencialistas – Sartre escreveu
um livro (Transcendance de l’Ego), em
que mostra que a autotranscendência tem por fim dar ao pour-soi (a consciência) os dons da estabilidade, objetividade e
concretude própria do en-soi (as
coisas).
Já Heidegger dizia que a autotranscendência é o
constituinte fundamental do homem, o qual é, por natureza, existente
(ex-sistens), quer dizer, algo que está fora de si mesmo. O homem é
caracterizado pela “ultrapassagem” essencial da situação de fato em direção às
suas possibilidades ulteriores.
Jaspers afirmou que o homem toma consciência da
autotranscendência sobretudo nas situações limites.
Marxistas – Os marxistas
tradicionais repudiavam energicamente qualquer noção de transcendência. Hoje,
os discípulos de Marx consideram-na como um instrumento fundamental para a
compreensão do homem. Garaudy dizia que a transcendência designa a consciência
da não realização do homem, a dimensão do infinito.
Marcuse põe em evidência a autotranscendência do
homem do nosso tempo, contudo, também afirma que a transcendência do homem tem
caráter puramente histórico e temporal
(não metafísico): é a projeção em direção a futuro melhor que o
presente.
Bloch a chama de “elemento utópico”, “espaço
utópico”. Diz que a transcendência está presente em várias atividades do homem,
particularmente as artísticas. Afirma que a raiz da autotranscendência é o
“não-ainda”, ou seja, o espaço de possibilidade em que se acha constantemente
situado o ser do homem e do mundo.
Para Popper, “nós continuamente transcendemos a nós
mesmos, aos nossos talentos e às nossas qualidades. Essa autotranscendência é o
mais extraordinário e importante fato de toda a vida e de toda a evolução e,
especialmente, da evolução humana. Nas suas fases pré-humanas, ela,
naturalmente, é menos óbvia, tanto que, de fato pode ser erroneamente trocada
com algo de semelhante à auto-expressão. Mas em nível humano, só à força a
autotranscendência pode ser posta à parte ou não ser considerada” (Epistemologia, razionalità e liberta.
Armando, Roma, 1972, p. 58).
Pensadores católicos – A autotranscendêcia é uma propriedade
essencial do ser humano, último fundamento da sua espiritualidade e
sobrevivência depois da morte. Muitos pensadores católicos se debruçaram sobre
o tema: Marcel, Blondel, Rahner, Metz, Boros, Barbotin, Lonergan e De Finance.
Maurice Blondel diz que a autotranscendência está no
homem todo, seja no ser, seja no agir, seja no pensar. Mas, é no ser que está a
antinomia profunda entre o que ele é o que deveria ser, antinomia insolúvel,
pois não consegue nunca se tornar o que gostaria de ser; ademais, o homem
suplante continuamente o horizonte dos conhecimentos já adquiridos e se lança
para fins sempre mais altos; enfim, há um profundo equilíbrio entre vontade que
quer e vontade querida, porque o resultado da ação não consegue nunca adequar o
objetivo que o homem tinha se proposto quando começou a agir.
Rahner diz que o homem é um ser continuamente
aberto, que não se fecha nunca sobre si mesmo para dizer a palavra “fim”. E é
exatamente nessa abertura que está a autotranscendência: ela faz com que o
homem se projete sempre para frente. Adverte Rahner que esta abertura não é
“vazio”, mas é abertura que desemboca no Absoluto, o qual é encontrado como
único mistério capaz de saldá-la e fechá-la.
Metz insiste sobretudo no ponto de que a
autotranscendência atinge a sua plena realização somente na Transcendência
absoluta. A razão mais forte disso é que o homem não pode pôr-se sobre si mesmo
com as próprias mãos, mas somente com a ajuda de Deus.
Em Mysterium
Mortis, Boros explora o sentido da experiência de autotranscendência que o
homem possui quando se torna consciente da precariedade do seu ser. “Ao fim do
processo dialético através dos vários estados da consciência, aparece
claramente que o homem, em cada ato do seu querer, tende, ainda que de maneira
irrefletida, para a decisão na qual, tornado plenamente idêntico a todo o seu
querer possa tomar posição defronte a Deus. Deus é, indiferentemente do fato de
que seja ou não chamado com esse nome, o encontro inevitável de cada ato
humano. Ele está no fim de todos os caminhos que o homem possa percorrer. A
fuga dele é só um modo diferente para correr em sua direção e cair em suas
mãos. Ele sustenta desde sempre cada movimento do homem e, por isso, torna-se
presença inevitável da consciência. Dessa ou daquela forma, Ele ocupa sempre o
campo das representações humanas” (Boros, Mysterium
mortis. Queriniana, Bréscia, 1969, pp. 70-71).
Existe a AUTOTRANSCENDÊNCIA HORIZONTAL
(aquela na qual o homem efetua a superação de si mesmo olhando para frente, orientando-se
para as coisas futuras no pensar, no querer e no agir) e a AUTOTRANSCENDÊNCIA
VERTICAL (aquela na qual o homem se ergue sobre si mesmo, olhando para cima
e notando a própria finitude).
DIANTE DE TUDO ISTO, TEMOS QUE: A autotranscendência
é o movimento com que o homem ultrapassa sistematicamente a si mesmo, tudo o
que é, tudo o que adquiriu, tudo o que pensa, quer e realiza. Mas, cada
movimento tem uma direção, aponta para um objetivo. Para onde está dirigida a
autotranscendência? O que quer tornar o homem projetando-se continuamente para
além da situação presente?
Com o auxílio do que se disse até aqui, você
consegue fazer alguma ligação entre o sofrimento e a autotranscendência?
Assista ao vídeo abaixo (procure pesquisar sobre
Victor Frankl):
A pessoa humana
A partir do que já dissemos até aqui, creio
que está bem evidente para nós a SINGULARIDADE ou EXCEPCIONALIDADE da pessoa
humana. Se, por um lado, percebe-se uma longa série de manifestações em que o
homem supera todas as coisas q ue o
cercam, por outro, descobre-se a razão profunda desta sua singularidade na
espiritualidade da alma.
Costuma-se dar um nome
compreensível à singularidade do ser humano: diz-se que o homem, ao contrário
das outras coisas que o circundam, é PESSOA. O problema da pessoa foi
frequentemente debatido na história do pensamento humano, mas nunca como hoje
esteve no centro das atenções de todos os estudiosos. Assim, os filósofos,
alguns dos quais fizeram da pessoa o epicentro de suas reflexões, dando origem
a uma visão filosófica que recebeu o nome de PERSONALISMO. Da mesma forma, os
teólogos, particularmente com referência a Cristo (a sua é uma pessoa humana ou
divina? Qual é o “eu” de Cristo?). O problema da pessoa é, além disso, estudado
pelos psicólogos, pelos psicanalistas, pelos educadores, pelos políticos, pelos
juristas. Nos conflitos ideológicos e políticos com freqüência se toma o
respeito aos direitos da pessoa humana como para determinar a bondade de uma
ideologia ou de um sistema político.
O termo PESSOA, para os
gregos, como já vimos, volta-se ao gênero humano de modo abstrato
(indistintamente, todos os que pertencem ao gênero humano, são pessoas). Para o
CRISTIANISMO, o termo assume um caráter individual (cada indivíduo do gênero
humano é pessoa).
O pensamento cristão é
reforçado pela idéia de que cada uma das pessoas são filhas de Deus. Aqui, o
conceito de pessoa não foi transmitido como simples dado de fé. Na patrística
(primeiros séculos da era cristã, em que se destacam os primeiros escritos do
cristianismo) e na escolástica (idade média), o termo foi submetido a análise
racional aprofundada e acabou por adquirir sólida veste filosófica. A ocasião
de tal aprofundamento ocorreu principalmente a partir das disputas
teológicas acerca dos grandes mistérios da Trindade e da Encarnação, a cuja
solução contribuiu de forma decisiva a formulação exata do conceito de pessoa.
O primeiro exame
rigoroso deste conceito foi realizado por Agostinho de Hipona. A sua intenção é
de encontrar um termo que se possa aplicar distintamente ao Pai, ao Filho e ao
Espírito Santo sem correr, de uma parte, o risco de fazer deles três deuses e,
de outra parte, sem dissolver a sua individualidade. Ele mostra que os termos
“essência” e “substância” não tem esse dupla virtude. Ela, pelo contrário,
pertence ao termo grego “hipóstase” e ao seu correlativo latino “pessoa”, o
qual “não significa uma espécie, mas algo de singular e de individual.
Analogamente esse termo aplica-se também ao homem.
Para Tomás de Aquino, “a
pessoa significa o que de mais nobre há no universo, isto é, o subsistente
de maneira racional”. O fundamento íntimo da personalidade é dado, a seu
juízo, pela autonomia no ser por parte de uma realidade racional, ou seja, pela
posse de ato próprio de ser graças a tal posse, a realidade humana torna-se
completa em si mesma e não pode mais ser comunicada, associada a outros.
Portanto, quando um ato de ser, próprio e proporcionado a certa essência
particular ou substância individual intelectiva, a faz existir em si e por si,
por isso mesmo é incomunicada e incomunicável, é pessoa. A pessoa, esclarece Santo
Tomás, goza de tripla incomunicabilidade:
“antes de tudo,
o indivíduo que é pessoa não pode comunicar-se com as outras coisas como parte,
sendo um todo completo; depois, não pode comunicar-se como o universal
se comunica com os singulares, porquanto a pessoa é algo de subsistente; enfim,
não pode comunicar-se como algo de assumível porque o que é assumível ocorre na
personalidade do assumente e não há mais uma personalidade própria. Não é,
porém, contrária ao conceito de pessoa a capacidade de assumir”.
Para entender esta aula
do “aquinate”, vejamos:
1) Minha pessoa
(minha personalidade) é somente minha e não pode ser comunicada de forma alguma
a outra pessoa. A comunicação da vida (um pai e um filho) não significa
despojar-se da própria personalidade para dá-la a outrem. A personalidade não é
transmissível.
a. Não como a parte
em relação ao todo;
b. Não como o
universal ao particular (gênero humano – indivíduo);
c. Não é “assumível”,
embora seja possível à pessoa “assumir”.
2) Assim como a
personalidade não é transmissível, não é competência do que a tem gerá-la em si
mesmo. Não transmiti, nem gero. Um outro ser quem não o portador da
personalidade, e somente ele, é capaz de dar a alguém a personalidade.
3) Este alguém é
Deus.
4) A PESSOA É UM SER
AUTÔNOMO.
Com Descartes, começa a surgir um novo conceito de
pessoa: não é definida mais em relação com a autonomia do ser, mas em relação
com a AUTOCONSCIÊNCIA. O homem tem garantia de ser si mesmo, de existir
efetivamente, de não ser puro sonho, mas autêntica realidade, porque pensa a si
mesmo: “COGITO, ERGO SUM!” O Eu consiste na autoconsciência. A singularidade do
homem consiste precisamente nisso.
O conceito cartesiano de pessoa exerceu influência
decisiva sobre toda a especulação filosófica que se lhe sucedeu, para a qual garantir
que o homem é pessoa significa demonstrar que o homem é dotado de
autoconsciência.
Com relação a Kant, é útil lembrar a sua definição
de pessoa, na qual lhe é assinalado como traço característico o ser fim a si
mesma: “os seres racionais são chamados pessoas porque a sua natureza os
distingue já como fins em si... O homem e em geral todo ser racional, existe
como fim em si e não somente como meio de que esta ou aquela vontade pode
servir-se ao seu bel prazer”.
Tenho consciência da minha existência? Ou duvido de quem sou?
Assistamos o vídeo abaixo:
De Professor p/ professor rsrsrs http://www.youtube.com/watch?v=68RVStbFr0I (Ainda meio confuso com o tema sobre teorias: evolucão vs criação, andei dando umas pesquisadas e encontrei esse vídeo... Sei que o senhor estudou, fez cursos, mais concordor mais com o professor adauto que está logo acima no vídeo que defende a tese da criação. Muito interessante, se tiver tempo assista.) Abraço Paulo Jefferson - contabilidade
ResponderExcluirAtravés do sofrimento é possível o homem auto transcender, se superar no momento mais difícil . É lutar por aquilo que muitos acham que não dar certo, ou que não vai acontecer. É AUTO DETERMINA-SE na vitória impossível. Paulo Jefferson - contabilidade
ResponderExcluirSó acho que você teria que resumir um pouco mas está ótimo! Vejam o meu blog http://sbjunanda.blogspot.com.br/
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