terça-feira, 24 de julho de 2012

Nota de Aula IV


NOTA DE AULA IV

3. O HOMEM COMO SER DE AUTODETERMINAÇÃO

Ao tratar do livre-arbítrio, Sto. Agostinho discorre sobre muitos outros assuntos extremamente relacionados a este, por exemplo, sobre a natureza de Deus, sobre a individualidade e unidade das criaturas e etc. Isso porque a noção de livre-arbítrio está intimamente relacionada com a concepção de Deus e com a individualidade e unidade do ser. 
Para os gregos, que consideravam o homem como uma parte de um todo e não um ser individual na sua essência, não havia livre-arbítrio, mas sim destino, pois era a natureza, o Pan, que condicionava o futuro dos homens, partes desse Todo. Eram panteístas e, em decorrência disso também, acreditavam na astrologia. 
Para os maniqueus, que afirmavam a existência de duas almas no homem, de dois princípios opostos, um bom e outro mau, que as ações humanas eram boas ou más conforme a ação dessas almas, os atos humanos eram determinados pela natureza do próprio homem, como, por exemplo, sentir fome. Para eles, portanto, não havia livre-arbítrio. Santo Agostinho:
"...aqueles que, observando em todas as decisões a existência de duas vontades, afirmam a existência de duas almas com naturezas diversas, uma boa e outra má." (Confissões, VIII, 10) 
Sto. Agostinho, por outro lado, com provas racionais em harmonia com a doutrina da Igreja Católica, considerava o homem como um ser individual, e Deus transcendente ao mundo. Com isso, não caiu no erro dos gregos, panteístas, nem no dos maniqueus, dualistas; erros que levam à anulação do livre-arbítrio. 
Portanto, esses dois assuntos (a concepção de Deus e a individualidade e unidade do ser) são de extrema importância para falar sobre o livre-arbítrio em Sto. Agostinho.
Por se tratar de um tema extremamente espinhoso e fonte de inúmeras discussões, poucos se colocaram a estudá-lo e a explicá-lo; e os poucos comentários que existem sobre esse livro, não são recomendáveis, porque não são fiéis, como por exemplo, o comentário de Lutero.
É interessante, e mesmo importante para boa compreensão dos textos de Sto.Agostinho, alguns livros que tratam do livre-arbítrio baseados em Santo Agostinho ou pelo menos em harmonia com seu pensamento, como por exemplo, a questão LXXXIII, da primeira parte da Suma Teológica de São Tomás; o livro "Para a Inteligência do Dogma da Providência" do Pe.Garrrigou-Lagrange e o "Liberdade e Determinismo", do Pe. Leonel Franca. São livros que servem como guias para esse assunto.
Mas, afinal, somos livres, mesmo diante de nossas debilidades? Assistamos ao vídeo abaixo, talvez já conhecido de muita gente:

            E, para entender Santo Agostinho e o Livre Arbítrio, vamos estudar o artigo abaixo:



O LIVRE-ARBÍTRIO COMO UM BEM PROVENIENTE DE DEUS DE ACORDO COM O LIVRO II DA OBRA O LIVRE-ARBÍTRIO
DE SANTO AGOSTINHO

Wellington Carvalho de Macêdo[1]

O presente texto estuda o tema da vontade livre do homem segundo o Livro II da obra O livre-arbítrio[2] de Santo Agostinho. A temática desse texto está voltada para a argumentação de Agostinho na tentativa de provar que o livre-arbítrio é um bem e proveniente de Deus. O texto aqui desenvolvido, começa apresentando uma breve contextualização da obra em questão, o porquê seu autor a escreveu e o seu método. Posteriormente, será tematizada a prova agostiniana da existência de Deus. Com isso, será discutida a argumentação a favor do livre-arbítrio como um bem, culminando na afirmação de que ele provém de Deus. A questão do mal também será estudada, tendo em vista que, segundo Agostinho, o mal está ligado ao fato do homem possuir a vontade livre. Por fim considerar-se-á que o mal está ligado à moral.

PALAVRAS-CHAVES: Agostinho, livre-arbítrio, Deus, bem, mal, moral.

1 INTRODUÇÃO

Depois de convertido ao cristianismo católico e batizado, Agostinho tenta voltar a Tagaste, na África do Norte. No entanto, sua mãe[3] falece, enquanto eles esperavam a partida da embarcação que os levaria à Tagaste. Motivado pela morte de sua mãe, Agostinho decide ir e ficar em Roma no inverno do ano de 387 e todo o ano de 388.
Desejando prevenir seus amigos e, se possível um bom número de pessoas, da doutrina errônea e equívoca dos maniqueus[4], Agostinho escreve vários tratados entre os quais O livre-arbítrio. Agostinho começa a escrevê-lo em 388. Ao voltar para Tagaste continua a escrevê-lo, mas, só o termina em Hipona, África do Norte, por volta de 394/95, quando já é sacerdote[5] da Igreja Católica[6].
Agostinho defende que o livre-arbítrio é sempre um bem concedido ao homem por Deus, mesmo que o homem utilize-o de forma errônea, o que provoca o mal. Para sustentar tal afirmação, Agostinho desenvolve uma das teorias mais interessantes do período Medieval, acerca da liberdade, da vontade e do mal.

2 PRIMEIRAS ASSERÇÕES


A obra O livre-arbítrio é escrito em forma de diálogo, entre Agostinho e seu amigo Evódio, e trata sobre a vontade livre do homem e a origem do mal[7]. A principal afirmação de Agostinho é que o livre-arbítrio[8] é um bem concedido por Deus.
No Livro I do O livre-arbítrio, Agostinho e Evódio chegam à conclusão que o homem possui o livre-arbítrio (a vontade livre). Porém, diante da afirmação de Agostinho de que o livre-arbítrio é um bem dado por Deus, Evódio levanta um problema ao afirmar que é por tal liberdade que o homem peca: “O quanto me parece ter compreendido no livro anterior, é que nós só possuímos o livre-arbítrio da vontade, mas acontece ainda que é unicamente por ele que pecamos” (Agostinho, 1995, p. 73).
Essa afirmação de Evódio envolve várias implicações. Agostinho acredita que o livre-arbítrio é um bem e, sendo assim, só pode provir de Deus, pois este é a fonte de todo o bem. Porém, se é por esta liberdade de juízo que o homem peca e, sendo o pecado um mal, ter-se-ia dois problemas fundamentais: o primeiro, se realmente o livre arbítrio é um bem; o segundo, se é por ter a capacidade de livre arbitrariedade que o homem peca, como pode essa capacidade ter sido dada por Deus, que é fonte exclusiva de todo o bem?
É importante ter em mente que mesmo Agostinho sendo cristão e fervoroso na fé, na sua investigação, junta dois meios: fé e razão. Segundo o pensamento agostiniano, não basta apenas ter fé, é necessário saber sobre o que se acredita. E também não basta apenas mover-se pela razão, pois, para que essa seja eficiente, é necessário acreditar no que se investiga. Primeiramente, Agostinho crê e, a partir da crença, investiga sua verdade. Assim, Agostinho se manifesta sobre o crer para entender:
[...] Com efeito se crer não fosse uma coisa e compreender outra, e se não devêssemos, primeiramente, crer nas sublimes e divinas verdades que desejamos compreender, seria em vão que o profeta teria dito: ‘Se não o credes não entendereis’[9]       (1995, p. 73).
            Portanto, em sua ivestigação sobre o livre-arbitrio, Agostinho primeiramente prova a existência de Deus[10]. Depois, prova que o livre-arbítrio é um bem e, por conseguinte, provém de Deus.

3 A PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS


Para chegar à existência de Deus, Agostinho parte do único ser que pode fazer tal investigação: o homem. Agostinho começa afirmando que há três realidades: existir, viver e entender. Dessas três, a mais excelente é a última.  Isso porque, aquele que só existe não vive e nem entende (ex.: objetos inanimados); aquele que só vive, existe, porém não entende (ex.: os animais irracionais); e aquele que entende necessariamente existe e vive (ex.: o homem). Assim, Agostinho expressa: “E admitimos, igualmente, que a melhor das três é a que só o homem possui, juntamente com as duas outras, isto é, a inteligência, que supõem nela o existir e o viver” ( 1995, p. 81).
Agostinho parte do homem porque, partindo da criatura mais completa, chega-se ao criador perfeito. Não que se consigua entender o criador, o que seria impossível, mas ao menos consegue-se comprovar sua existência.
O homem, criado por Deus, possui os sentidos exteriores[11] - visão, audição, tato, paladar, olfato -, que lhe possibilita os primeiros contatos com a realidade. Cada sentido exterior tem sua finalidade e uma categoria de objetos exteriores[12] que lhe é possível identificar, muito embora alguns objetos são identificados por mais de um sentido, mesmo sendo por vias e características diferentes.
A respeito desse raciocínio, Agostinho indaga a Evódio: “Compreendes, pois, igualmente, que cada sentido tem certos objetos próprios sobre os quais nos informam, e que alguns dentre eles percebem objetos de modo comum?”( Ibidem, p. 83). Evódio responde: “Comprendo também isso” (Ibidem, p. 83).
Portanto, de acordo com Agostinho, o homem é dotado de sentidos exteriores que lhe permite identificar os objetos exteriores e cada um tem características e objetos próprios. Mas, há objetos que são identificados por mais de um sentido, mesmo que por vias diferentes. O som, por exemplo, só pode ser identificado pelo sentido da audição. Porém, algo sólido pode ser identificado tanto pela visão como pelo tato.
No entanto, o que faz o homem distinguir o que cabe a cada sentido exterior e o que é comum a eles identificar não são os próprios sentidos exteriores, mas o sentido interior, que é comum ao homem e ao animal. Tal sentido é a faculdade que faz o homem ou o animal, a partir do que observa pelos sentidos exteriores, buscar ou não o que foi observado. Sobre esse assunto, Evódio afirma:
Graças a esse sentido interior, todos os objetos, não somente os apreendidos pela vista, mas também pelo ouvido e pelos outros sentidos corporais, são: procurados e apossado, [...], no caso de isso lhes causar agrado; ou bem, evitados e rejeitados no caso de lhes serem nocivos. Mas esse sentido interior não se pode dizer que seja, nem a vista, nem o ouvido, nem o olfato, nem o gosto, nem o tato. Ele é, não sei que outra faculdade diferente, que governa universalmente a todos os sentidos exteriores, por igual. (Agostinho, 1995, p. 83).  
Agostinho concorda com Evódio: “Admito a existência dessa faculdade, seja ela qual for, e sem hesitação denomino-a sentido interior” (Ibidem, p. 84).
Esse sentido interior não é a razão[13], pois, tanto Agostinho quanto Evódio, admitem que o animal também o possui, dado que ele tem a capacidade de rejeitar ou não o que capta pelos seus sentidos exteriores. Não admitem que esse sentido interior seja a razão, pois, se o admitissem, por conseqüência, admitiriam que o animal também é dotado de razão, o que não é verdade. 
O sentido interior é precedente à razão e, é somente pela razão que o homem identifica a ação desse sentido interior. Ou seja, é pela razão que o homem delibera acerca do que é percebido pelos sentidos exteriores, que são movidos pelo sentido interior. Portanto, para Agostinho, a razão está, em nível de importância, acima do sentido interior, que por sua vez, está acima dos sentidos exteriores.
Constata-se, pois, uma escala ascendente no ser que entende: cabe aos sentidos exteriores captarem e absorverem as características dos objetos exteriores; ao sentido interior cabe direcionar os sentidos exteriores a buscar ou não os objetos exteriores; e, por fim, à razão cabe assimilar e processar[14] as informações absorvidas e transformá-las em conhecimento. Em suma, a escala ascendente no homem é: sentidos exteriores, sentido interior e razão.
Na natureza do homem - o único ser que existe, vive e entende - o que há de mais sublime é a razão. Portanto, na escala dos seres não há nada que esteja acima da razão. No entanto, existem verdades que são captadas pela razão, mas que lhe são superiores: os números e a sabedoria.
Agostinho defende que a verdade dos números e da sabedoria está acima da razão, por esta verdade transcender o mundo sensível. Os números não são criados ou estabelecidos a partir das coisas sensíveis. Para Agostinho, a verdade dos números existe fora do mundo sensível e, é pela razão que o homem consegue identificá-la e atribuí-la às coisas sensíveis. Isso porque os números possuem uma lógica imutável, estável e inabalável, que transcende os sentidos exteriores. Agostinho demonstra a lógica perfeita dos números:
Além do mais, seguindo a série dos números, vemos que depois do um vem o dois, e esse número comparado ao precedente é o seu dobro. Contudo, o dobro de dois não vem logo depois dele, mas sim o três, por meio do qual se chega ao quatro, que é o dobro de dois. [...] Assim, pois, vai acontecer com todos os outros o que foi verificado com o primeiro par de números, isto é, com o um e o dois, a saber: acrescentando a um número qualquer a série de unidades que ele conta, a totalidade obtida é o seu dobro (1995, p. 103).    
Por fim, ele atesta:
[...] mas igualmente a quem a teimosia não envolveu nas trevas, são forçados a reconhecer que a lei e a verdade dos números escapam ao domínio dos sentidos corporais, e que essas leis são universais e puras, oferecendo-se universalmente aos olhos de todos aqueles que são capazes de raciocínios (Agostinho, 1995, p. 104). 
Em relação à sabedoria, Agostinho diz que ela é o único meio verdadeiro para se chegar ao Sumo Bem[15]. No pensamento agostiniano, a sabedoria, assim como os números, também é imutável, estável, inabalável e transcende ao sensível. Chegar ao Sumo Bem é o desejo de todos, dado que alcançá-lo resulta em conseguir atingir a felicidade[16] e não há alguém que não a queira. A respeito disso, Agostinho escreve:
Portanto, como é certo que todos queremos ser felizes, é também certo que queremos possuir a sabedoria. Pois ninguém é feliz sem a posse do sumo Bem, cuja contemplação e posse encontra-se nessa verdade que denominamos sabedoria (1995, p. 107).
Agostinho afirma que todos desejam e buscam atingir o sumo Bem que é único e comum a todos. Entende-se assim que, sendo a sabedoria o meio verdadeiro para se chegar ao Sumo Bem, ela necessariamente tem que ser única e comum a todos, devido ao objeto ao qual conduz também possuir essas características.
Um exemplo que a sabedoria está acima da razão humana e que é somente captada por ela, pode ser ilustrado na proposição: os bichos não entendem. Não é a razão do homem que determina que os bichos não entendem. Essa verdade existe por si mesma, o homem apenas a apreende da realidade. Mesmo que o homem não perceba, os bichos continuaram sem poder entender, dado que não possuem a faculdade racional. Portanto, não é o homem que atribui verdade às coisas, o homem a capta. A sabedoria existe por si, o homem a apreende.
Agostinho afirma uma sabedoria única, imutável e comum a todos, tomando como exemplo as virtudes, pois é de comum acordo que para o homem ser virtuoso só há um caminho: agir bem. Para tal fim, é necessário ser sábio, porque sem a sabedoria não é possível deliberar corretamente. Segundo Agostinho, só há um modo de agir bem, negar àquilo que corrompe e prejudica o espírito e praticar ações que elevam o espírito – agir bem. Esse pressuposto é comum e imutável a todo o homem.
Portanto, apesar de toda a pluralidade de conhecimento, existe uma sabedoria transcendente que é única e imutável. E esse é o caminho verdadeiro que conduz ao Sumo Bem, que efetiva a felicidade. Agostinho conclui:
Portanto, quanto verdadeiras e imutáveis são aquelas leis dos números, das quais, como dizias anteriormente, apresentam-se de modo imutável e universal a todos os que as consideram, e tanto são igualmente verdadeiras e imutáveis as regras da sabedoria (1995, p. 113).
Apesar dos números e da sabedoria serem verdades únicas e imutáveis, uma não é superior à outra. Elas são idênticas. Ao afirmar isso, Agostinho mostra que existe uma Verdade suprema e indubitável, da qual provêm outras verdades. Essa Verdade é Deus, do qual provém a vontade livre:
Eis no que consiste a nossa liberdade: estarmos submetidos a essa verdade. É ela o nosso Deus mesmo, o qual nos liberta da morte, isto é, da condição de pecado. Pois a própria Verdade que se fez homem, conversando com os homens, disse àqueles que nela acreditavam: ‘Se permanecerdes na minha palavra sereis, em verdade, meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’[17] (Ibidem, p.121).     
O Deus de Agostinho não é qualquer deus. Mas sim, o Deus único e verdadeiro, revelado[18] por seu filho Unigênito, Jesus Cristo[19], e divulgado pelo testemunho dos seus apóstolos e discípulos. Esse pensamento não aparece textualmente no Livro II da obra O Livre-Arbítrio, mas pelo fato de Agostinho ter sido presbítero e Bispo da Igreja Católica, pode-se tranqüilamente afirma-lo. No entanto, o que importa é que Agostinho afirma e comprova a existência de Deus:
Deus, pois, existe! Ele é a realidade verdadeira e suma, acima de tudo. E eu julgo que essa verdade não somente é objeto inabalável de nossa fé, mas que nós chegamos a ela, pela razão, como sendo uma verdade certíssima, ainda que sua visão não nos seja muito profunda, pelo conhecimento (1995, p.126).   
Deus é, para Agostinho, a fonte de todo o bem. Por conseguinte, sendo o livre-arbítrio um bem, é lógico que esse há de ser concedido por Deus. Após a constatação da existência de um Deus único e fonte de todo o bem, cabe investigar o que Agostinho pensa a respeito do livre-arbítrio como um bem proveniente de Deus.

4 O LIVRE-ARBÍTRIO COMO UM BEM PROVENIENTE DE DEUS


Agostinho afirma que todo o bem procede de Deus: “[...] é porque todos os bens, sejam eles quais forem, do maior ao menor, não procedem se não de Deus” (Ibidem, p.133).
Agostinho acredita veementemente que Deus é o criador de tudo o que existe. Sua fé se fundamenta principalmente na Sagrada Escritura. Nela, encontra-se a afirmação: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). Na concepção de Agostinho, Deus, Verdade imutável, criou tudo o que há, razão porque toda a criação é um bem.
Sendo assim, persiste o problema já mencionado: Se Deus criou tudo, o livre-arbítrio só poderia provir dele. Mas, se tudo o que provém de Deus é um bem, como pode o livre-arbítrio ser um bem, se é por ele que o homem peca? Agostinho afirma:
Ora, essas duas verdades: que Deus existe e que todos os bens vêm dele, nós já admitimos com fé inabalável. Entretanto, nós a expusemos de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente, a saber: que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus (1995, p.134).  
Segundo Agostinho, se o homem não tiver a capacidade de livre escolha, não é possível caracterizá-lo como justo. Isso por que, mesmo que ele pratique a justiça, se não for por livre vontade, mas por uma imposição, não age virtuosamente, pois age por falta de possibilidades.
Do mesmo modo, se não houver a livre vontade, não se pode condenar o homem injusto, pois a ação que o caracterizaria como tal, não seria responsabilidade sua, mas conseqüência da falta de possibilidades. Alguém que age injustamente por falta de possibilidades, não é culpado por suas ações.
Sendo assim, para Agostinho, o livre-arbítrio já é considerado um bem pelo fato de que é por possuí-lo que o homem pode ser considerado justo ou injusto. Ora, ao possuir a liberdade de escolha o homem pode deliberar sobre suas ações. Portanto, se agir bem ou mal a responsabilidade é sua.  Agostinho diz que:
[...] se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecadores e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado, nem boa ação, caso não fosse voluntária (1995, p.75).
A afirmação agostiniana de que o livre-arbítrio é um bem, se fundamenta no fato de derivar dele a capacidade do homem poder escolher entre o que é bom e o que é ruim, possibilitando o desenvolvimento livre do seu espírito. Ao optar pelo bem voluntariamente o homem se torna digno de louvor. Por outro lado, ao optar por não fazer o bem, pode ser repreendido. Para Agostinho, o bem em relação ao livre-arbítrio está no fato de que por ele, Deus concede ao homem o ‘poder’ de escolher voluntariamente fazer o bem.
Portanto, o livre-arbítrio é um bem porque por ele o homem tem a capacidade de tornar seu espírito mais pleno e próximo de Deus livremente. No entanto, mesmo sendo o livre-arbítrio um bem dado por Deus, é por ele que o homem tem a possibilidade de pecar. Agostinho afirma que o pecado está na errada utilização da vontade livre. O homem tem duas grandes escolhas centrais: fazer ou não fazer o bem. Quando o homem escolhe não fazer o bem, peca. Mas, ainda que isso possa acontecer em nada diminui que o livre-arbítrio é um bem.
Agostinho exemplifica: “Com efeito, vês que grande privação é para o corpo não ter as mãos, e, contudo acontece que há quem use mal das próprias mãos. Realizam com elas ações cruéis e vergonhosas” (Ibidem, p.136). 
Em outras palavras, a mão é um bem, mas também pode ser utilizada para o mal. No entanto, o fato do homem utilizá-la de forma errônea não neutraliza nem contradiz o fato dela ser um bem, pois, na sua ausência, o homem é prejudicado, porque perde parte da sua agilidade e autonomia natural. 
Semelhante é com o livre-arbítrio, no pensamento de Agostinho. Por mais que o homem utilize erroneamente a vontade livre, ela continua sendo um bem. Pela sua bondade, Deus concedeu esse dom ao homem, pelo qual ele não é escravo das ‘vontades’ divinas, mas, é livre para optar pelo bem. O bem não é imposto por Deus. O bem é possibilitado por Deus.[20]
Verdadeiramente o livre-arbitrio é um bem proveniente de Deus, como Agostinho sistematiza e prova. No entanto,  há um último ponto a tratar. Agostinho diz que a liberdade da vontade está no fato de escolher entre fazer ou não fazer o bem, mas e o mal que é o pecado, de onde vêm?
O pecado é possível devido ao livre-arbítrio. Diante dessa afirmação, retoma-se a indagação anterior: sendo o livre-arbítrio o que possibilita o surgimento do pecado e, sendo ele proveniente de Deus, é Deus a causa do pecado? Agostinho responde que o pecado não provém de Deus, mas provém do livre afastamento de Deus. O pecado é a negação do bem.
Agostinho não acredita que haja uma causa eficiente do mal[21]. A única causa eficiente metafísica-ontológica que existe é o Sumo Bem, Deus. O mal não provém de uma entidade divina. Ele só passa a existir quando o homem não faz o bem.
Tem-se, pois, a prova agostiniana de que o mal não vem de Deus. É o homem que o gera quando, em sua liberdade, pratica atos que se contrapõem ao bem. Portanto, o mal é a conseqüência do uso deficiente do livre-arbítrio. Se o homem utilizar a vontade livre corretamente, o mal não existirá.
Portanto, mesmo que o homem peque, a vontade livre continua sendo um bem dado por Deus. Deus não é a fonte do mal, pois esse acontece não porque Deus o faz, mas porque o homem, que deveria livremente fazer o bem, opta por não faze-lo. O mal é de cunho moral, pois surge de acordo com a conduta do homem.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

          Fica explícita a contestação agostiniana às idéias maniquéias. Enquanto para os maniqueus há dois princípios do que é existente, Deus (o Bem) e Satanás (o Mal), para Agostinho, só há um princípio, Deus – o Sumo Bem. Para os maniqueus o homem já nasce bom ou mau, para Agostinho o homem é sempre um bem, porém torna-se mau quando contraria o bem por sua livre vontade.

          Na concepção de Agostinho, Deus concedeu o livre-arbítrio ao homem para que agisse retamente e optasse por praticar o bem voluntariamente, não o obrigando a agir bem, mas possibilitando que ele o fizesse. Porém, quando o homem não utiliza sua vontade livre para fazer o bem, torna-se causador do mal. Não há, segundo Agostinho, um ser transcendente que faz com que o mal aconteça. O mal surge, quando o homem, pela sua livre vontade, nega-se a fazer o bem.

          Agostinho defende que o livre-arbítrio é um bem, mesmo que o homem o utilize de maneira errada, pois, foi-lhe dado para que deliberadamente agisse retamente a fim de que seu espírito seja elevado à Deus e possa gozar da verdadeira felicidade. Tudo que Deus fez é um bem indubitavelmente.

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 
AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os Pensadores).
_____. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. p. 73. (Os Pensadores).
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1985.
CATECISMO. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 200.
LORENZO, Alvarez et al. Lexicon – Dicionário Teológico Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003.
MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual esquemático de história da filosofia. 2.ed. São Paulo: LTr, 2000.



[1] Acadêmico do 3º Semestre do Curso de Filosofia da Faculdade Palotina – FAPAS.
[2] Tradução para o português, introdução e notas de Nair de Assis Oliveira; revisão de Honório Dalbosco.
[3] Sua mãe, de nome Mônica, hoje é considerada Santa pela Igreja Católica. Do ponto de vista religioso a conversão de Agostinho ao Cristianismo deve-se à assídua oração de Mônica a Deus pedindo que seu filho se convertesse. Para saber a respeito de Mônica e de sua importância na conversão de Agostinho pesquisar AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 94-96/145-147/239-253. 
[4] Doutrina na qual Agostinho participara antes de se converter ao Cristianismo. Essa doutrina tem como verdade que o mundo é dividido e regido por  dois principios: o Bem e o Mal. Foi elaborada a partir da junção de três doutrinas: o zoroastro, o budismo, e o cristianismo. E seu fundador foi Mani. (Cf.ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 641.). 
[5] Agostinho foi ordenado não por iniciativa própria, mas pelo desejo do povo. Num certo dia de 391, o bispo Valério de Hipona  perguntou à assembléia de sua diocese quem eles gostariam que exercesse o ministério de coadjuntor nos serviços sacerdotais, especialmente na pregação. O povo pediu que Agostinho fosse ordenado presbítero. Agostinho, de início, não se agradou com a idéia, mas pelo povo decidiu exercer tal ministério. (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 9. (Os Pensadores) ).
[6] Igreja Católica Apostólica Romana.
[7] Em Agostinho a problemática do mal pode ser dividida em três níveis: o primeiro é relativo ao mal ontológico, que para Agostinho não existe;  o segundo é relativo ao mal moral, que para ele é o pecado; o terceiro é relativo ao mal físico, que ele caracteriza como sendo as doenças e os sofrimentos, que são conseqüências do pecado original. (Cf. MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual esquemático de história da filosofia. 2.ed. São Paulo: LTr, 2000.).
[8] Para Agostinho esse livre-arbítrio não apenas provém de Deus, mas também era necessário que Deus o tivesse concedido ao homem: “[...] era necessário que Deus desse ao homem essa vontade livre”. (AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. p. 75. (Os Pensadores)).
[9] Is 7,9.
[10] A importância de se provar primeiro a existência de Deus está no fato de que, para Agostinho, é dele que provém o livre-arbitrio. Sendo assim, para sustentar que a vontade livre do homem é um bem, por provir de Deus, é necessário primeiro provar que esse existe e que ele é a fonte de todo o bem.
[11] ‘Sentidos exteriores’ é uma expressão própria da tradutora. Agostinho os chama de ‘sentidos corporais’. Porém, aqui será utilizado a primeira expressão.
[12] Objetos exteriores são os objetos (coisas) que compõem o mundo sensível.
[13] Razão: Referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação. Nesse sentido, dizemos que a razão é uma ‘faculdade’ própria da homem, que o distingue dos animais. (Cf.ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 824.).
[14] É atraves das ligações feitas pela razão que podemos fazer ciência.
[15] É a plenitude de todos os bens. É o Ser que dá origem a todos os bens.
[16] A verdadeira felicidade, nas palavras de Agostinho: “Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas só àqueles que desinteressadamente Vos servem: essa alegria sois Vós. A vida feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz e não há outra.” (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 281.).
[17] Jo 8,31-32.
[18] Em teologia, revelação significa: “Ato livre com que Deus comunica seu mistério à humanidade convidando-a à partilha. O ponto mais alto da revelação é a ‘crística’. A revelação da palavra se fez ‘carne’ e o alfabeto de Deus toma corpo na linguagem de Jesus de Nazaré. Esta revelação, como indica a Dei Verbum no n. 4, deve ser considerada ‘definitiva’ e ‘completa’ porque em Jesus Cristo, Deus diz tudo o que, no mistério de seu amor, queria comunicar à humanidade”. (Cf. LORENZO, Alvarez et al. Lexicon – Dicionário Teológico Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003. p. 633.).
[19] A Igreja Católica professa em sua fé que Jesus Cristo é o filho do Deus Verdadeiro, é o verbo de Deus que se fez carne e habitou entre os homens. A principal missão de Jesus segundo os que acreditam em sua divindade foi ‘revelar’ o amor de Deus Pai aos homens. (Cf.: Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000, p. 119.)
[20] Cf.: AGOSTINHO, Op. cit. p. 136.
[21] Os maniqueus afirmavam que o mal provinha de Satanás, que, para eles, é um ser igual a Deus e fonte de todo o mal. Agostinho quer contrapor essa idéia, pois, para ele, só há Deus. Não há outra entidade que esteja em igualdade a Deus e que dê movimento ao mal.  Nas palavras de Agostinho: “Em, absoluto, o mal não existe nem para Vós nem para as vossas criaturas, pois nenhuma coisa há fora de Vós que se revolte ou que desmanche a ordem que lhe estabelecestes.” (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p.188).

3 comentários:

  1. Bom dia caro Prof. Renato achei esse video no you tube e achei bem interessante,gostaria que o Sr. Postasse no seu blog; http://www.youtube.com/watch?v=XvKzrsAk168&feature=g-vrec

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  2. Eu Sonhei um Sonho
    Houve um tempo em que os homens eram gentis
    Quando suas vozes eram suaves
    E suas palavras convidativas
    Houve um tempo em que o amor era cego
    E o mundo era uma música
    E a música era excitante
    Houve um tempo... e de repente tudo ficou errado

    Eu sonhei um sonho em um tempo passado
    Quando as esperanças eram grandes e a vida valia ser vivida
    Eu sonhei que o amor nunca acabaria
    Eu sonhei que Deus seria misericordioso.

    Eu era jovem e não tinha medo
    Quando os sonhos eram realizados e usados e jogados fora
    Não havia resgate a ser pago
    Nenhuma música sem ser cantada, nem vinho não degustado.

    Mas os tigres vêm a noite,
    Com suas vozes suaves como trovão,
    Enquanto eles despedaçam sua esperança
    Enquanto eles tornam seus sonhos em vergonha

    Ele dormiu um verão ao meu lado.
    Ele preencheu meus dias com maravilhas sem fim,
    Ele levou minha infância em seu passo
    Mas ele se foi quando o outono veio.

    E ainda assim eu sonhei que ele voltaria para mim
    E que viveríamos os anos juntos,
    Mas existem sonhos que não podem ser sonhados
    E existem tempestades que não podem passar.

    Eu tive um sonho que minha vida seria
    Tão diferente deste inferno que eu vivo
    Tão diferente agora do que parecia ser
    Agora a vida matou o sonho
    Que eu sonhei

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  3. Boa tarde caros colegas!!

    Está historia de livre-arbítrio é complicada, pois temos á livre vontade de fazer o que quisermos, mas, porém devemos conhecer exatamente o que se pode fazer de bem o de mal, por exemplo, se você pergunta para um ladrão se ele esta fazendo o bem em roubar ele iram dizer que não, mas procure saber os motivos pelo qual ele esta roubando, ou se um assassino, que matou ou qualquer pessoa que cometeu um crime se ele esta fazendo o bem? todos aqueles que tenham consciência e agem através de seus pensamentos “razão”, irão dizer que não! Não estão fazendo o bem ai sim cabe um verdadeiro conhecedor da razão mostrar para estas pessoas ou demonstrar com atitudes como se faz o bem (trabalhando muito, estudando mais ainda e se dedicando a uma vida...) Vida... sim Vida... Qual Vida... Você prefere uma boa vida ou uma má vida? boa para mim é você fazer tudo de bom para você e da mesma maneira para os outros. Ou seja, se você quer seu bem queira o bem dos outros também, eu sei é fácil falar e muito difícil fazer, mas não custar nada tentar seja você também um mediador do bem, leve sempre boas palavras consigo (obrigado, colicensa, bom dia, boa tarde, boa noite seja gentil educado pois isto pode custar muita coisa para varias pessoas, resumindo deixemos de ser mais individualistas e sejamos mais misericordiosos tanto para conosco como para com próximo.

    José Wellington "Administração"

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